Archive for the 'Arte' Category

Super-heróis modificados

Que tal um Batman decadente e gorducho comendo rosquinhas? E um Super-Homem franzino e rindo à toa? Influenciado pela infância passada nos anos 80, o artista australiano Anthony Lister trabalha com assuntos da sociedade e da cultura popular, refletindo o seu lado menos glamouroso.

Lister, que hoje mora em Nova York, vê a televisão como um meio de meditação contemporânea e retira dela (e também dos comic books) a maioria de seus temas. O artista convida o espectador para uma reflexão sobre os modelos transmitidos na infância entrelaçando-se com a atual e nebulosa realidade social.

Para Lister, o brilho puro da realidade vivida na infância cedeu espaço a uma perspectiva distorcida da realidade das guerras, das relações humanas e do colapso social, “a simplicidade da infância está perdida em nossa memória obscurecida e desbotada dentro de um terno azul”, assinala o artista.

Playful Spaces

Brincar enquanto se espera o ônibus já é possível! O projeto “Playful Spaces”, do artista londrino Bruno Taylor, investiga as diferentes formas de trazer o lúdico de volta ao espaço público, utilizando os elementos arquitetônicos já existentes na cidade. O projeto questiona se os espaços públicos de uma cidade é suficiente para as pessoas brincarem, pois de acordo com pesquisa, 71% dos adultos brincavam na rua quando crianças, enquanto que hoje apenas 21% das crianças fazem o mesmo.

Colhido no designboom.com

Radioactive Cats

Esta é uma das obras mais conhecidas da artista norte-americana Sandy Skoglund. Fazem parte de seu processo de criação objetos cuidadosamente selecionados e coloridos, em um processo que leva meses para a sua conclusão. Além de objetos esculpidos, a artista completa suas obras (fotos, instalações e vídeos) com a presença de atores.

Skoglund, que é atualmente docente em fotografia e arte instalação na Rutgers University, em Nova Jersey (EUA), afirma que enquanto criava Radioactive Cats, começou a perceber o mundo como se ela fosse um gato.

Alguns críticos escreveram que o número excessivo de gatos em RC indica a perda de controle humano, e que se lido no contexto de uma catástrofe nuclear, o excesso de gatos sugere que a natureza como conhecemos terá sido perdida. Pelo contexto social, a figura dos idosos e o número excessivo de gatos remetem à generosidade dos idosos ao recolher os felinos. Outros afirmam que a autora criou  gatos luminosos (jogando com a idéia de que os gatos pode ver à noite), dispostos em um apartamento sombrio e degradado, criando um mundo para além do nosso controle. E outros exageram ao dizer que a obra retrata animais perseguindo o casal idoso na cozinha, onde no brilho que emana o ato de abrir a porta da geladeira, assiste-se a um pesadelo de velhice e de decrepitude.

Na minha opinião, gatos e humanos estão serenos e em plena harmonia. É uma obra fascinante.

Radioactive Cats (1980): fotografia colorida (cibachrome), 65 x 83 cm.
Acervo: fraclorraine.org

Doces Sonhos

Kirsten Lepore é animadora, ilustradora freelancer e mora em Nova Jérsei, EUA. Recém graduada no curso de Animação Experimental pela Maryland Institute College of Art, Kirsten já tem um belo trabalho em seu breve currículo. As fotos que ilustram este post são da animação Sweet Dreams (2007), que tem 10 minutos de duração e conta a história de um docinho sonhador que num belo dia resolve construir um barco de açucar e se aventurar pelo mar. A animação em stop-motion levou um ano para ser concluída. O resultado é lindo e outras animações também compõem o site da autora, como “Craig and Walter” (2005) realizada em 3D, com apenas 1 minuto, e “Guess Who” (2006) também em stop-motion e com efeito especial para os nostálgicos apreciadores dos brinquedos da geração 80.

Se tiver tempo, a dica é acessar pangeaday.org para assistir a animação “Sweet Dreams” completa, com mais docinhos e uma floresta de legumes! E aproveitando a carona, outra dica é assistir (no mesmo site) ao curta-metragem L’homme sans tête, (2001), do argentino Juan Diego Solanas.

Little People in the City

Reafirmo minha crença (em post anterior) de que a arte deve ir ao encontro do público e estar no cotidiano e nas ruas movimentadas das cidades. Dentro deste cenário e inspirado por Banksy, outro misterioso artista surgiu em Londres e é conhecido como Slinkachu ou Slinky, apelido dado por seus fãs. O artista interfere no cotidiano dos pedestres e recria a vida cotidiana sob a forma de pequenas esculturas cuidadosamente espalhadas pela cidade.

No blog little-people há várias fotos de intervenções urbanas com estas sutis e delicadas obras de arte, que estarão no livro Little People in the City que será logo publicado e já pode ser encomendado pela Amazon. Vale à pena conferir também no site do artista os outros links de street art que ele indica.

wall-painted animation

Enquanto não voltamos, deixo aqui uma criativa animação em stop-motion nos muros de Buenos Aires e Baden, encontrado neste site.


MUTO a wall-painted animation by BLU from blu on Vimeo.

A gota d’água da cultura catarinense

Foi literalmente a gota d’água para a cena cultural catarinense: a exposição “Coleção Gilberto Chateaubriand: um Século de Arte Brasileira” que reúne 170 obras do maior colecionador particular do país e traça um panorama da arte nacional durante o século XX tinha sua abertura marcada para a semana que passou, dia 22, mas foi adiada por prazo indeterminado devido às goteiras do Masc. Há muito tempo que as goteiras fazem parte do acervo do museu e, se “a causa das goteiras foi um rasgo na manta de impermeabilização ocorrido durante um conserto no ar-condicionado em 2006″ como declarou a diretora da FCC, então este “conserto” foi uma bela-obra-mal-feita, porque não existem um ou dois pontos de goteiras, e sim vários. Em visita ao Masc, presenciei cenas lamentáveis em dias de chuva: baldes espalhados pelas salas da administração do museu e funcionários realocando mesas de trabalho para que papéis não virassem sopa. É esta a situação lamentável em que vive o museu do nosso Estado. Já faz muito tempo que a administração do Masc reinvindica reformas, mas parece que o governo estadual não vê o museu de arte como o espaço da organização histórica da arte, mas sim como uma instalação temporária ou invisível.

As goteiras do Masc são somente um dos sintomas da nossa política cultural catarinense. Desde que o atual governo foi eleito, parece que toda a atenção cultural se volta somente para o Bolshoi em Joinville, que é o único cartão-de-visita-cultural-de-exibição do governador em suas viagens ao exterior. A cultura catarinense vive um retrocesso desde que o atual governo juntou a cultura, o esporte e o turismo numa só secretaria.

A crise cultural em Santa Catarina é tão grave que em junho de 2007 o Decreto 406 alterou a Lei nº 13.336 fez com que um produtor cultural catarinense, além de ter que captar o recurso para o seu próprio projeto, é obrigado também a captar recurso para o governo (o Funcultural), ou seja, o proponente é captador não só para o seu projeto aprovado, mas também para projetos do próprio governo que deveriam ser objetos de dotação orçamentária e jamais concorrer com os produtores. Este ato fere diretamente as condições de criação e produção artísticas. A Fundação Catarinense de Cultura (FCC), por exemplo, já é financiada com recursos do Funcultural, numa inversão da lógica dos fundos de cultura e mesmo das leis de incentivo.

Em entrevista ao Anexo do dia 19 de outubro de 2007, o secretário de turismo, cultura e esporte Gilmar Knaesel foi questionado sobre “se existem recursos para aplicar no setor, porque chove dentro do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis” e ele respondeu que “já há uma solução para esta obra. Nós temos que recuperar este vazio de quatro anos que nós pouco investimos na infra-estrutura porque nós não tínhamos recursos.” Mas parece que não faltam recursos, pois o próprio Funcultural destinou uma verba de 400 mil reais só para esta exposição “Coleção Chateaubriand”, cujas obras de nomes consagrados como Lasar Segall, Portinari, Oiticica e Lygia Clark não previam as goteiras. Hoje estas obras estão dentro das caixas e sem público para admirá-las e na melhor das hipóteses a exposição vai acontecer dentro de alguns dias e depois de um ou dois meses irá para outro museu, porém, as goteiras vão ficar e o Masc continuará sua batalha, esperando pelos investimentos sempre prometidos, mas que nunca “pingam”.

O silêncio de Candida Höfer

A artista alemã Candida Höfer registra espaços onde a mistura de diferentes épocas se encontram. Desde 1979 Candida fotografa espaços públicos ou semipúblicos como igrejas, hotéis, salas de espera, auditórios e teatros. Muitas das fotografias de Höfer são dedicadas às bibliotecas e museus, estes que são centros da vida cultural, “onde a cultura é categorizada, administrada, guardada e exposta” (Höfer). As mais lindas bibliotecas de todo o mundo podem ser vistas na publicação “Libaries”da editora Thames and Hudson e com prefácio de Umberto Eco.

Os interiores fotografados por Höfer são locais de transição, organização e conhecimento e raramente os espaços fotografados incluem seres humanos. A presença humana é apenas sentida indiretamente, embora ela esteja sempre lá inscrita na matéria e na memória de quem habitou estes edifícios ou de quem os ergueu, passou ou hoje deles usufruem.

Admiro o trabalho desta artista porque além do tema proposto entre o público e o privado, o silêncio e os templos sagrados de livros, é a luz natural que prevalece em suas fotografias. Obras completamente desprovidas de pessoas, esta é a marca, o registro e o rastro do Höfer, cuja obra irradia uma serenidade reconfortante, em que o silêncio e o vazio predominam.

As imagens acima são das bibliotecas: Trinity College Library Dublin, Biblioteca de la Real Academia de la Lengua Madrid e La Bibliothèque Nationale de France, Paris. A foto abaixo é da British Library, em Londres.