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O gato de 95 milhões de dólares

Dora Maar with Cat

A vida e obra de Pablo Picasso são bem conhecidas do público em geral, e eu, uma amante de gatos, não havia percebido que dentre as inúmeras obras do pintor espanhol, havia um gato entre elas. Nada como um blog para compartilhar dicas importantíssimas como esta que a leitora, amiga e antropóloga Flavia Motta lançou: a obra “Dora Maar com Gato”, pintada por Picasso em 1941. Além de ser uma das mais famosas obras do artista, esta pintura é, desde 2006, a segunda obra mais cara do pintor, vendida em leilão pelo incrível valor de 95,2 milhões de dólares. O arremate final deu-se a um anônimo russo presente no leilão, mas acredita-se que o verdadeiro dono da obra seja um milionário minerador residente na Geórgia, uma pequena república localizada na fronteira entre a Europa e Ásia, e limitada a oeste com o Mar Negro.

“Dora Maar com Gato” (128,3 cm x 95,3 cm), é um exemplar cubista e retrata a mais famosa amante e grande musa inspiradora de Picasso. Dora foi tão importante para Picasso que, como consta, ajudou o artista a pintar “Guernica”, obra-prima que denuncia o massacre do povo basco pelas tropas franquistas durante a Guerra Civil Espanhola. Na pintura, Dora Maar, com grandes unhas azuis que parecem garras de gato, está sentada numa cadeira com um gatinho preto em seu ombro. Detalhe importante: Dora não gostava de gatos, e a inclusão do felino desconhecido na obra – dizem alguns especialistas – é um símbolo do controle que Picasso exercia sobre esta mulher.

Dora e PicassoFotógrafa de origem iugoslava, Dora, que também foi amante do escritor Georges Bataille, conheceu Picasso (na época com 55 anos) aos 29 anos de idade. Diferente da maioria das outras mulheres, que sempre viveram à sombra do pintor, Dora era uma fotógrafa de talento e prezava por sua privacidade. De acordo com o pintor pernambucano Cícero Dias, que foi amigo de Picasso, Dora era uma mulher nervosa e deprimida, e foi internada várias vezes, porque não agüentava saber do relacionamento de Picasso com outras mulheres.

Picasso e Dora viveram em romance de 1936 a 1943, até quando o pintor a trocou por Françoise Gilot, 39 anos mais nova do que ele. Depois do fim do romance, ela se recolheu à solidão, em Paris. Em 1997, aos 89 anos, Dora morreu sozinha e incógnita, num asilo da capital francesa.

O gato por dentro - William Burroughs

O Gato por dentroA editora L&PM lançou, em 2006, o pocket book “O gato por dentro”, no qual o célebre escritor beat norte-americano William Burroughs (1914-1997), amante inveterado dos felinos, relembra em 102 páginas, os gatos que passaram pela sua vida, tudo o que fizeram por ele e por sua saúde mental. O escritor parece concluir que, fora as particularidades físicas, pouca diferença há entre humanos e felinos.

William Burroughs iniciou sua carreira literária na década de 40, ao lado de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, entre outros escritores beats. Sua obra mais conhecida é “Naked Lunch” (Almoço Nu), publicado em 2005 no Brasil, pela editora Ediouro. Conhecidíssimo pelas experimentações com diversos narcóticos, nos anos 70 Burroughs passou a lecionar e conviver com intelectuais e artistas como Andy Warhol e Susan Sontag. Na década de 80, sua obra e personalidade tornaram-se referências mundiais.

Escrito na maturidade do autor, entre 1984 e 1986, “O gato por dentro” traz inventivas e espirituosas reminiscências e reflexões. É uma viagem sentimental e muito particular pelo ancestral convívio entre gatos e humanos. Abaixo, alguns trechos do livro:

“Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim. Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos.”

“Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar. Sem dúvida compartilha coisas com o gato, e também com outros animais: raposas voadoras, lêmures ai-ais, lêmures-voadores com olhos amarelos enormes que vivem em árvores e são indefesos no chão, lêmures de cauda anelada e os pequeninos lêmures microcebos, martas, guaxinins, minks, lontras, gambás e raposas da areia.”

“Há quinze anos sonhei que tinha pego um gato branco com linha e anzol. Por algum motivo, estava prestes a rejeitar a criatura e jogá-la de volta, mas ela começou a se esfregar contra mim e a miar de um jeito comovente. Desde que adotei Ruski, os sonhos com gatos são nítidos e freqüentes. Costumo sonhar que Ruski pulou em minha cama. Claro que isso às vezes acontece, e Fletch também é um visitante contumaz, que pula na cama, se aninha contra mim e ronrona tão alto que não consigo dormir.”

May Belfort, 1895

may belfort

May Belfort foi uma jovem cantora irlandesa de cabarés parisienses do final do século 19. Era muito conhecida porque durante suas performances usava um estranho roupão com grandes mangas bufantes e uma touca que a faziam parecer um bebê. Carregava também seu gatinho de estimação, registrado nesta litografia em 4 cores, datada de 1895, pelo artista francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901).

Alguns críticos achavam a voz de May Belfort ruim e patética, mas ela capturava sua audiência quando cantava antigas melodias irlandesas com seu jeito angelical. Diziam que na realidade ela era uma garota sádica e valentona. Quando Lautrec a viu pela primeira vez em 1895, cantando no café-concert Les Décadents, ficou fascinado. Durante sua carreira, criou cinco pinturas, um poster e seis litografias da cantora.

O interesse de Lautrec pelos cabarés de Paris começou quando ele ainda era estudante. Em 1884, ele visitou o conhecido café Chat Noir e conheceu o famoso proprietário Aristide Bruant que o apresentou a todos os artistas. Começava assim uma sociedade promissora, pois além de frequentador assíduo dos cabarés, Lautrec criou vários cartazes, anúncios e peças publicitárias para estes estabelecimentos, inclusive o mais famoso deles, o Moulin Rouge. O artista ficou famoso por trazer refinada estética artística às gravuras coloridas e por suas técnicas inovadoras. Tornou-se famoso como o pintor da noite moderna, por capturar a essência da vida noturna, nas inúmeras cenas teatrais dos cabarés parisienses.

Catlovers

Mr and Mrs Clarke and Percy

Catlovers é uma categoria de posts sobre o registro de gatos na arte. Pintores, escritores, fotógrafos, enfim, todos os que amam (ou amaram) e dedicam um pouco de suas vidas à esses felinos. Gatos famosos também estarão aqui.

Para começar, dedico este post à Percy, o gatinho desta obra intitulada Mr and Mrs Clarke and Percy (1970-1), do pintor britânico David Hockney. Este é um dos quadros mais populares do artista, um triplo retrato de seus amigos fashion designers Celia Birtwhistle e Ozzie Clarke e o gato Percy, porém dizem que o nome do gatinho não era este.

O quadro faz parte do acervo da Tate Gallery, em Londres.